domingo

CARTA PARA O MEU PAI


Pai, hoje sua neta completa dezoito anos, reuniremos a família toda, menos você, você não quis participar da nossa vida, você desde sempre nos excluiu da sua vida.
Sabe pai, nunca entendi o porquê.

Lembro-me em criança nunca ter ganho um abraço, um beijo, nada, entre nós dois habitava um deserto sentimental.

Lembro-me de você sorrindo, abraçando e até beijando os filhos dos teus milhares de amigos, que a religião te deu. Eu me pergunto, o que ela deu para seus filhos? Para sua esposa? Talvez a falsa esperança, de que um dia, você também nos pertencesse, mas não: minha mãe, querida e sagrada mãe, morreu sem ver isso acontecer. 

Pai, suas netas perguntam porquê você nunca ligou para elas? Nesses momentos de interrogações, eu que tenho respostas para tudo, sou invadido por um mar de silêncio que me rouba qualquer sanidade, simplesmente não sei o que dizer, e elas não sabem o que fazer com tamanha indiferença. 

Tenho ainda vivo na memória nosso último encontro, você não sabe, mas eu já sabia que você não ia comparecer, tentei acalentar suas netas com gelados e hambúrgueres, tentei abafar a saudade com passeios ao ar livre naquela tarde, mas quando se aperceberam do nosso regresso para casa, fizemos a viagem toda em silencio, falávamos através do olhar, não havia o que dizer, não havia o que fazer, outra vez você falhou, e então jurei para mim mesmo, que elas nunca mais seriam decepcionadas pelas suas ausências.

Pai, se algum dia a tua maravilhosa vida, deixar de existir, lembre-se que você tem a mim, mesmo que seja por breves momentos, ainda assim, valerá a pena, porque assim, um dia poderei contar aos meus netos, como você era, que histórias te faziam sorrir, um dia pai, um dia, não peço mais que isso, apenas um dia.

Muitas pessoas vêm-me dizer que somos parecidos, veja pai: essas pessoas te conhecem, mas eu não posso dizer o mesmo porque não te conheço.

Uma vez, uma única vez, ouvi você dizer que era um bom jogador, por longos tempos, tentei que me dissesse que tipo de jogador, mas você nunca teve tempo, soube recentemente que agora é pastor, acho isso tão insólito, porque é incoerente com você, os pastores apascentam pai, cuidam, zelam, pelas suas ovelhas; você nunca fez com a sua própria família como pode tornar-se nisso?

Pai, você é feito de quê? O que te move? Quais são os seus sonhos? Quem você de verdade ama? Por quem você dedica seus dias?

Pai, essa carta não tem data, não tem rancor, não tem indiferença e não tem a pretensão de te envergonhar, essa carta é testemunha de que somos por sangue alguma coisa, mas por sua escolha não tive essa bênção, mas saiba, que te amo do fundo da minha alma, e por muito que a minha inconsciência me tortura por não te ter na minha vida, conscientemente respeito a sua escolha, mas pai, tomara que você nunca, venha descobrir o quanto isso dói.



Gleidston César     

OBRIGADO Á TODOS